A favela está na vanguarda da economia colaborativa. Ela já existia de forma mais ”humana” nas comunidades.

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Hilaine Yaccoub, doutora em Antropologia do Consumo pela UFF, chegou nessa conclusão após quatro anos de pesquisa na favela Barreira do Vasco, na cidade do Rio de Janeiro: “A favela está na vanguarda da economia de compartilhamento e no consumo colaborativo. É um valor intrínseco que deveria servir de exemplo para muitas sociedades. Estaria eu diante de uma resposta ou alternativa para o “consumismo” moderno e individualista?”, questiona

Por *Hilaine Yaccoub, **trecho extraído de sua tese de doutorado

Lições da Favela

Sobre o que vivi e aprendi ao conviver “de perto e de dentro” com moradores de uma favela carioca

A maior parte dos antropólogos realiza o chamado “trabalho de campo” para observar e apreender dados sobre os fenômenos que se propões estudar. Dentro desta metodologia, denominada Etnografia, convivemos com o grupo, moramos no lugar, participamos de sua vida cotidiana, criamos laços de amizade e confiança para só então entrar na lógica de pensamento daquele público. Comigo foi assim ao vivenciar por quase 4 anos a vida cotidiana de uma rede social de moradores de uma favela no Rio de Janeiro. Aqui eu conto duas situações que me inspiraram a escrever minha tese e mudaram minha forma de ver minha profissão, meu estilo de vida e sobretudo a função da minha existência. Ninguém passa pelo “campo” imune. A gente se transforma, não há dúvidas.

Estava sentada na copa da casa de Vaninha quando o telefone tocou e ela atendeu: “claro, venha, eu tenho leite aqui, não precisa trazer não, mas aveia eu não tenho (risos). Tá bom, vem que tô te esperando”. Ela desligou e perguntei o que houve. “A moça que trabalha lá na banca de Crê (apelido de Cleonice, sua irmã mais velha que vende doces e água de coco na praça) está precisando fazer um mingau de aveia e o gás acabou, aí ela pediu (emprestado) minha boca do fogão, então ela vem a essa hora fazer o mingau”. Era sábado à noite (bem tarde) e isso a impossibilitava de comprar um botijão.

Durante o tempo que permaneci em contato íntimo com a rede social na qual me inseri percebi que esta era uma prática corriqueira. Os pedidos de ajuda ou suporte em emergências cotidianas aos vizinhos e integrantes da rede chegava a ser prosaico. Era visto por eles como algo “natural”, algo que fazia parte da vida cotidiana e precisava ser resolvido na ordem do dia, sem dramas. Na verdade, fazer parte da rede era saber lidar com situações desse tipo com “bastante naturalidade”.

Eu tinha, portanto, um cenário: a rede social na qual de alguma forma eu fazia parte ou pelo menos era assim que meus interlocutores me percebiam. Consciente disso, precisava então juntar as peças do quebra-cabeça e perceber como suas ações recíprocas traduzem uma forma própria de agir, que pode, sob vários aspectos, convergir para um estilo de vida que se insere numa perspectiva de vanguarda do mundo contemporâneo. A favela está na vanguarda da economia de compartilhamento e no consumo colaborativo. É um valor intrínseco que deveria servir de exemplo para muitas sociedades. Estaria eu diante de uma resposta ou alternativa para o “consumismo” moderno e individualista? Meu primeiro passo para responder a esta pergunta foi compreender bem a dinâmica dessas práticas.

De fato, há um valor por trás dessas práticas: a empatia. Para eles, os “favelados” (como costumavam se autodenominar), esse valor é “colocar-se no lugar do outro” constantemente. Isso fica evidente nos discursos e nas explicações que meus interlocutores me deram, pois todos me responderam que, dependendo das circunstâncias, todas aquelas situações ou pedidos de ajuda poderiam partir deles próprios, sendo assim “obrigatório” ajudar, emprestar e se doar – formas de valorização do coletivo que se sobrepõe ao indivíduo. No caso, por exemplo, dos “mais abastados” (e a rede social é heterogênea em relação às posições socioeconômicas locais), essa empatia vem acompanhada da memória, uma vez que ao auxiliarem outros integrantes, lembram do seu próprio passado de escassez e dificuldades quando não tinham alimentos em abundância ou não podiam presentear seus filhos, por exemplo. Nesse caso, a “batalha da vida” nunca é esquecida e os que estão à volta pedindo remetem aos problemas pelos quais todos já passaram. Os dramas do presente, vividos por outrem, relembram os dramas próprios e, desse modo, motivam a performance dos atores, pois estes conhecem os sentimentos e expectativas que caracterizam os papéis sociais em cena.

Lembro de uma ocasião em que uma moça (uma jovem senhora de aproximadamente 45 anos) estava indo para a festa de formatura de sua filha. Ela demonstrava ansiedade e inquietação. Era empregada doméstica e sua aflição tinha uma razão: não teve tempo de arrumar o cabelo e fazer a maquiagem para uma ocasião tão importante. Ela passou na Associação e contou em tom dramático que não poderia ver sua filha se formar no colégio porque não queria fazer a menina “passar vergonha”. Vaninha, mais que depressa, mandou Fafá correr até sua casa e pegar o estojo de maquiagem e disse veementemente: “você vai sim, é uma conquista dela e sua, você não pode perder”. Fafá saiu correndo pela rua Darcy Vargas para pegar o estojo de maquiagem de Vaninha. Enquanto isso, deu-se início a um tipo de interrogatório entre Vaninha e a mulher: se havia roupa adequada, sapatos, bolsa etc, se além da maquiagem precisava de mais alguma coisa, como faria o penteado do cabelo etc. Quando a moça deixou a sala, Vaninha virou-se para mim e disse: “Eu sei muito bem o que é isso, a gente ter vergonha, não ter uma boa roupa para botar e deixar de ir nos lugares porque dá vergonha mesmo. Imagine você perder a formatura de um filho, é uma coisa que quase não se vê, é uma conquista dela também, ela precisa estar persente, e ainda mais para filha não ter a mãe do lado nessa hora!? Não pode ser assim, ela tem que ir e a gente dá um jeito”.

Não pude acompanhar todo o desenrolar da história, mas em outra ocasião perguntei à Vaninha qual tinha sido o desfecho e ela me disse que a mulher foi à formatura, tal como devia.

Estamos diante de muito apego e sim, é preciso rever nossos valores. O que de fato importa para você se soubesse que amanhã às 19:45h você irá morrer? Sair correndo e comprar uma bolsa? Foque nas pessoas, foque nas emoções, foque nas experiências. As coisas são apenas meios.
*Hilaine Yaccoub é doutora em Antropologia do Consumo (UFF- RJ), Mestre em Antropologia do Consumo (UFF- RJ), pós graduada em Estudos Populacionais e Pesquisas Sociais (ENCE-IBGE) e formada em ciências sociais (UFRJ). Consultora independente, pesquisadora e palestrante. É Professora da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM) e Instituto Europeu de Design (IED) e Instituto Infnet (RJ). Co-criadora do MBA em Estratégias e Ciências do Consumo da ESPM RJ.
**Este texto é parte da minha tese de doutorado intitulada “Lições da Favela: As economias de compartilhamento de bens e serviços na Barreira do Vasco – RJ, defendida em janeiro de 2015 pelo Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social da UFF, linha de pesquisa Antropologia do Consumo.

 

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